Capitalismo selvagem e Estado resiliente

Comentário ao artigo do Chuang em Social Contagion

(The first version of the article written by Chuang on Social Contagion and China’s response to #Covid19 outbreak came out last February in English at Chuang’s website. A Brazilian Portuguese translation was also made available by Amauri Gonzo here. This text refers to that translation, which is why it will continue in Portuguese from this point onward.)

A denúncia de uma epidemia de medo avançando à frente do novo #coronavirus, seguida de tratamento de choque e controle estatal máximos, também apareceu na Itália em artigo de Giorgio Agamben no jornal comunista Il Manifesto em 25 de fevereiro de 2020, traduzido para o português pelo @rond aqui. Já comentei a este respeito neste toot.

No nosso entorno social em São Paulo, Brasil, a depender do nível de informação e desinformação em que estejamos imersos, medidas tão ou mais afobadas foram ensaiadas, com base em pouca ciência e muito racismo e preconceito. Um caso confirmado em São Paulo de viajante que retornou do norte da Itália foi enviado para auto-isolamento em seu apartamento no Jardim Europa, espalhando apreensão entre moradores do bairro e frequentadores dos clubes sociais vizinhos por onde o paciente costumava circular. Mas os italianos e seus descendentes não foram estigmatizados da mesma maneira vil como os oriundos da China e arredores. Racismo e preconceito são maldades seletivas, afinal.

Mas, tirando o show midiático do avião de repatriados de Wuhan que foi para quarentena em Goiás, nenhuma medida de controle estatal foi ainda seriamente implementada por aqui, e isso foi motivo de críticas das oposições de esquerda aos governos estaduais e federal.

Mas será que desejamos mesmo uma resposta estatal máxima dos governos Bolsonaro e Doria para um surto de gripe? Antes de responder a essa questão, acho relevante conhecer como os membros do coletivo comunista Chuang criticam a ação do Estado chinês em curso.

A crítica do artigo do Chuang é dupla: aponta uma reação extrema do Estado central e poderes locais aos moldes de uma contra-insurgência, o que contraditoriamente denunciaria a impotência do Estado em lidar com a situação, e vai mais além na crítica ao identificar a relação dos surtos recorrentes de infecções do proletariado chinês com o aprofundamento da superexploração capitalista na “fábrica do mundo”. É sobre esta segunda parte do argumento do artigo que me interessa comentar primeiro.

No trecho assinalado acima, o artigo aponta para um dos fatores que potencializam epidemias no capitalismo: monocultura, produção em massa e mercantilização das vidas (humanas e animais). Segundo os autores, as epidemias são de causa essencialmente capitalista porque surgem e são reforçadas pelas próprias reações capitalistas a elas, como os abates em massa e a eliminação de vírus menos violentos pelos tratamentos com antibióticos na produção de carne para consumo humano e animal.

O surto atual, por sinal, poderia ter sido impulsionado pelas respostas aos surtos anteriores, ao aumentar a pressão por consumo de animais selvagens dada a escassez relativa de carne suína abatida em massa no passado recente.

E também neste trecho:

Mais uma vez, e assim como na chamada “gripe espanhola” (que se chama assim porque a imprensa espanhola era a única que noticiava o surto em curso durante a 1a Guerra, enquanto as potências europeias e EUA tentavam abafar a realidade de um surto viral que muito provavelmente originou-se no Kansas), eram as péssimas condições de vida do proletariado que permitiam o contágio e a mortalidade extremas do surto, que de outra maneira poderia ter passado pela humanidade como “mais uma gripe”. Logo, a reinterpretação histórica que o artigo nos sugere, embasado em outros trabalhos na mesma direção, é que o “surto de gripe” é antes um sinal da gravidade da doença capitalista. A pressão sobre o espaço “selvagem” nas fronteiras rururbanas seria o flanco aberto da sociedade capitalista para um desafio biológico à sua existência.

Os “fundos territoriais” que conhecemos tanto na dinâmica de exploração em um país como o Brasil são também o espaço para um outro tipo de expansão capitalista e apropriação da natureza, que é a colonização biológica resumida no artigo no trecho seguinte.

Abordando o problema de um ponto de vista sistêmico, da relação do capitalismo com a natureza, e particularmente da pressão das “fornalhas da fábrica do mundo” de Wuhan e China sobre o ambiente selvagem, o artigo nos permite pensar o significado do momento atual para o conjunto do sistema, o que põe em perspectiva a ação dos Estados.

Assim, a estimativa do impacto econômico do #Covid19 é alta e abrangente. A “fábrica do mundo” desacelerou rapidamente, com possíveis consequências de uma nova recessão global.

Segundo o artigo, o surto poderia ser a confirmação de uma tendência já em curso de movimentação dos centros industriais na Guerra Comercial (#TradeWar).

Numa perspectiva não alarmista e minimamente realista, é razoável reconhecer que uma nova recessão global se aproxima. Ao contrário de 2008, não se veem centros dinâmicos capazes de retomar o ciclo de negócios. O “efeito China” é agora parte do problema.

Segundo interpreto da situação em curso, podemos ver as reações dos Estados a partir daí em duas atitudes típicas: agindo sobre os efeitos da crise global em gestação, como é o caso da China, EUA e da ação delegada à OMS e sistema ONU; ou preparando e ensaiando respostas de controle social e resiliência do Estado em contra-insurgência, que também é o caso da China, como o artigo do Chuang aponta na segunda parte de seu argumento, mas também irá surgir na Itália, como denunciado por Agamben e ecoar nos EUA e mundo afora levado pelo vírus do medo.

A resposta chinesa foi, em suma, a de apagar as fornalhas para controlar a sociedade, e estabelecer um regime excepcional de controle de fluxos nas cidades e responsabilização dos indivíduos. Mas tudo isso tinha de se dar por dentro de uma máquina estatal viciada e condicionada pelas questões regionais e de hierarquia do poder estatal.

O que está em curso, antes de qualquer outra coisa, é um ensaio de contra-insurgência de cada aparelho estatal, cujo resultado palpável é o fortalecimento da resiliência do Estado e a preservação do poder apesar da deterioração das condições de vida objetivas da população. O lugar por excelência de depreciação da vida humana, a prisão, é tornada em destino de indivíduos que não se adequam às medidas de exceção em curso. Com isso, as prisões aglomeradas tornam-se em caldeirões de cultivo de doenças à força, reforçando o estigma social dessa instituição símbolo do capitalismo.

Na interpretação do Chuang, o regime de exceção seria, na verdade, um sinal de impotência do Estado chinês em lidar com a situação. Em outras palavras, podemos dizer que a resiliência do Estado é escape para a sua própria falência múltipla em todas as frentes onde suporta atividades vitais da sociedade.

A conclusão do Chuang unifica os dois argumentos desenvolvidos no artigo (capitalismo selvagem e Estado resiliente), colocando-os em perspectiva crítica quanto à causação dialética entre capitalismo e Estado. Aquele agarra-se cada vez mais a este, apesar de a ideologia neoliberal fazer parecer o inverso.

Para o Brasil, desejar a máxima eficiência de resposta de Bolsonaro ou Doria através do poder de Estado pode ser desejar o pior para a população e as liberdades civis.

Se eles liderarem respostas ao #Covid19 nos moldes do que se tem visto mundo afora, suas ações certamente radicalizariam o Estado de Exceção brasileiro, atualizando-o com os ensaios de resiliência vistos na Itália e China. Afinal, tudo o que é ruim sempre pode piorar!

Autor: ritmo

arquiteto profissional e pós-graduando no IE-UNICAMP https://www.researchgate.net/profile/Andrei_Almeida Mastodon